Há dias em que a vida parece rodar em câmera lenta, um filme antigo sem som onde os gestos perdem o ensaio e as palavras perdem o peso. É quando o peito se descobre oco. Não há dor física, não há lágrima urgente; há apenas um silêncio vasto e gelado que engole qualquer tentativa de ruído.
Olha-se ao redor e as luzes da cidade, os prazos, as conversas cotidianas e os rostos na multidão parecem subitamente distantes, como se pertencessem a um mundo do qual fomos exilados. É o peso do nada. Uma gravidade invisível que puxa para o centro de uma ausência, onde todas as certezas desmoronam e a alma assiste, estática, ao eco de seus próprios passos em um corredor infinito e escuro.
Bate-se no peito procurando um eco, uma faísca, qualquer vestígio de incêndio, mas a noite lá fora reflete apenas a noite que se instalou aqui dentro. Um abismo que não pede explicações, apenas consome o tempo.

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